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A vida (in)suportável contemporânea

27 de Maio de 2015
O que Pascal notou em seu tempo foi o surgimento do “homem do divertimento”, aquele que não pode deixar de estar fazendo algo, se objetivando, se entretendo seja com o trabalho seja com o divertimento

“Os homens gastam seu tempo perseguindo uma bola ou uma lebre, é o esporte próprio dos reis.” Pascal é o autor dessa célebre frase, que está em seus Pensamentos. Por essa via, talvez seja mais fácil reconhecer nele o espírito dos tempos contemporâneos, os nossos tempos, deixando assim Bacon e Descartes, preocupados com domínio da natureza e as diabruras do método, o mérito de “pais do pensamento moderno”.

O que Pascal notou em seu tempo foi o surgimento do “homem do divertimento”, aquele que não pode deixar de estar fazendo algo, se objetivando, se entretendo seja com o trabalho seja com o divertimento mesmo, uma vez que está vazio e, se solitário e pensativo, entraria em desespero ao encontrar o nada. Aliás, Pascal chegou a enunciar o “eu” como o que depende só de predicados, não tendo nada de substancial ou não sendo nada em si mesmo. Com isso, ele deu um salto em séculos da modernidade. Ele chegou a nos ver hoje, bem além das promessas e derrotas modernas. Mais do que nunca estamos, hoje, envoltos no “divertimento” como uma tábua de salvação. Tábua furada, o resto de um barco que fez água.

Mas como chegamos nisso? Como nos transformamos nos adeptos da religião do divertimento, ou seja, do entretenimento. Como elegemos o deus “reality show” como o melhor dos nossos espetáculos ou como o suprassumo de nossa condenação ao voyeurismo da “sociedade do espetáculo”? Como que chegamos ao ponto de só poder fazer alguma coisa se temos a ilusão de que ela é prazerosa, que ela é “animante”, que ela pode nos livrar de ter de pensar nela própria? Como que chegamos a isso, hoje, a sociedade do sexo sem erotismo, da gourmetização sem saborear a comida, da academia que não nos deixa forte e que nada vale porque conseguiremos a “forma” através da “bomba”? De que modo se tornou verdade a ideia de que a escola só é boa se for “atrativa”, ou seja, um brinquedo? Por que temos de ter bola e coelho em tudo, para nos divertir, distrair, assistir, participar? Por que a gincanização de tudo logo após um mundo que prometia ser exatamente o contrário, o mundo do trabalho duro?

Marx, Durkheim e Weber falaram da modernidade justamente quando ela estava em passos decisivos. Quando da instauração do “mundo do trabalho”. Marx falou da libertação do trabalhador e sua entrada no mundo do trabalho como mais uma mercadoria nas mãos, as suas próprias mãos, ou seja, a sua força de trabalho. Durkheim falou da civilização alcançada de maneira a evitar a anomia se pudesse dividir corretamente o trabalho, a divisão orgânica, moderna, dispensando a divisão mecânica, comunitária e arcaica. Weber falou do trabalho e do risco empresariam como valor moral, como o elemento de comando de uma nova ética a azeitar melhor uma sociedade que não tinha mais como capa a religião. Mas, em um prazo de menos de um século, todas as “utopias da sociedade do trabalho” que poderiam vir acopladas, criticamente ou não, a esses teóricos, perdeu o sentido. Liberalismo, socialdemocracia, comunismo, trabalhismo populista, nazismo, fascismo, democracia cristã etc. – tudo isso perdeu o sentido uma vez que todas essas correntes estavam presas a algum elemento de realidade que coube na análise desses três grandes pensadores do mundo moderno. As energizações vindas disso deixaram de mover-nos.

Continuamos trabalhando e procurando trabalho. O mundo capitalista está intacto no que pode estar intacto. Mas nossa vida não mais é empurrada por motivos e por uma moralidade advinda do trabalho. Não, não voltamos aos tempos aristocráticos de uma moral sem trabalho. Não vamos perseguir a bola e o coelho como nobres, aristocratas ou burgueses de primeira viagem. Vamos perseguir coelho e bola como trabalhadores. Mas de que maneira ainda somos mesmo trabalhadores? Não somos. Vamos fazer isso fora de classes sociais e de minorias sociais, adotando então nosso lugar na criação de tribos de entretenimento.

Saem de cena o pobre e o rico, o operário e o burguês, o gay e o não-gay, a mulher feminista e o homem tradicional, os negros e os racistas, os anões e os não-anões etc. As distinções tradicionais, ou melhor, tipicamente modernas, dadas pela “sociedade de direitos”, geradas pela via europeia (social democracia) ou pela via americana (minorias), perdem sua legitimidade ou ficam à margem, dando espaço para tribos regidas cada uma por um tipo de entretenimento. Os gourmets, as lésbicas só de modinha, os frequentadores de academia sem saúde, os neofascistas sem doutrina fascista, os do skate, os da maconha sem ritual, a “galera da facul”, os “youtubers”, os da torcida organizada “neohooligan”, os “da balada”, os “do selfies” etc. Todo mundo está como o “homem do divertimento” de Pascal, mas agora sem qualquer perspectiva que não seja a não-perspectiva. O entretenimento atual é o reality show banal, pequeno, sensual sem sensação, desespiritualizado, mas que possa garantir os efeitos da bola e do coelho, ou seja, que ninguém venha para casa, para si mesmo. Que ninguém ouse orar, pois rezar é voltar de fato para casa, e pedir proteção dos pais não como criança, mas na lembrança da criança. Isso seria uma retomada de um eu não vazio. Por isso, a religiosidade autêntica é tão proibida quanto a filosofia autêntica, nessas circunstâncias.

Nessa nova “sociedade do espetáculo”, ainda vale alguma coisa da “análise da mercadoria”? Bem, claro. Se fôssemos marxistas diríamos – e acertaríamos bem – que na base dessa diversificação há uma democratização igualitária de tudo e de todos por meio da abstração. Se tudo passa pela lógica do mercado, então tudo ganha valor de troca e não mais de uso, se tornando então o que se eleva ao que é abstrato, o elemento que cria a equivalência do desigual, o dinheiro. Desse modo, é visível que tudo fica sem rosto. E a vida sem rosto é triste. Mas insuportável mesmo é a perda do próprio rosto. Uma vez que nem mais as identidades de classes e de grupos minoritários é possível, que venha então, para fazer os humanos recuperarem algo que parece ser propriamente humano – a diversidade do rosto –, o que é a universalização do entretenimento, de modo que cada um ganhe sua identidade social, agora, a partir do reality show que participa. Há os entretenimentos novos – a gourmetização; há os velhos, que é a transformação de antigos espaços em espaços de entretenimento: a escola atrativa, o trabalho em forma de jogo na empresa, o sexo lúdico capaz de se utilizar de mil e um apetrechos de brinquedo e de remédios. Ninguém pode parar. Só se pode pegar o novo rosto e usar. Pensar pode trazer o vazio, se entreter traz a completude pois, uma vez no espelho, dá o rosto e este é que dá o sentido de cada um na vida, na sociedade atual. Não se trata mais da máscara da sociedade de corte, como ensinou Elias, se trata do rosto mesmo como máscara de uma sociedade em que há quantas cortes quanto forem necessários os coelhos e as bolas.

Nesse ambiente, sai a TV e entra a TV particular, ou seja, a Internet. E com isso os joguinhos móveis. Enquanto não chego ao trabalho ou na casa da namorada para integrar o reality show do dia, o novo entretenimento, então eu vou já me entretendo no carro, no ônibus, no avião ou no ponto de ônibus, no aeroporto etc. por meio das mil e uma formas de ludicidade falsa do meu celular. “O mundo em suas mãos” – me prometeram e cumpriram! Não me fizeram grande para abraçar o mundo, mas o diminuíram em tudo para que eu pudesse pô-lo no bolso. Bastou fazer dele o lugar par excellence da bola e do coelho.

Ao mesmo tempo, ponho tudo isso no facebook e outras redes sociais, para que a “sociedade do espetáculo” se faça como resultado indireto da mercadorização, e dê a todos mais um jogo. Trata-se do melhor jogo, que é o do voyeurismo. Que a bola e o coelho se façam de alguma forma presentes. Ninguém vai ficar de fora. Todos vão ficar dentro. Dentro do que? De tudo que for o não-pensamento e a não decisão da vontade, mas somente a domesticação do desejo.

Não nos suportamos mais como seres que lidam com a liberdade, a verdade e o significado, ou seja, os elementos relativos, respectivamente, às faculdades da vontade, intelecto e razão. Isso nos daria de volta nossa imagem de homens e mulheres. Ora, não acreditamos mais nisso, que podemos ser homens e mulheres como já fomos. Aquilo tudo, agora, nos parece muito chato. Humanismo? Bah! Argh!. Queremos rostos novos, mais divertidos, rostos que não cansem ninguém, que sejam os do momento. No momento estou posando no facebook como um homem sem pênis. Mostro a “mangina”. É meu novo rosto, minha nova transgressão e aventura, e assim estou me divertimento e minha criação de mini espetáculo garante o voyeurismo e o divertimento do outro. Minha bola e coelho, de um reizinho que sou eu, estão no centro de atenções de meu palco. Não é egoísmo ou egocentrismo ou narcisismo. Eu deveria ter um eu para que fosse tal coisa. Mas não tenho, tenho apena a bola e o coelho. Mas, na verdade, não sei o que é bola e coelho, apenas ouvi dizer que são coisas que um filósofo falou. Ora, um filósofo? Então nada de importante. Nada que possa competir com uma sociedade esfuziante que exibe mil rostos lindos.




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