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Culto de rua

11 de Maio de 2015
É um culto de rua. E ao que parece, para aqueles, quanto maior for o raio de alcance sonoro, maior é o poder do Deus. Só que não...

Sabe aquela noite em que você chega morto de cansado depois de um longo dia todo de trabalho? Daí você toma um banho, janta com a família e fica na dúvida entre assistir um filme ou ler um bom livro na varanda. Pois bem, de repente um som estrondosamente absurdo começa a passar canções horríveis que fazem mais menção ao diabo do que ao próprio Deus. Então algum rapaz com voz de vendedor de confecção inicia mesmo com o tocar das canções estranhas uma espécie de avaliação do som usando o microfone e dizendo: “teste, um, dois, três, aleluia”; “ok, som, um, dois, trêsss, glórias ao Senhor”.

Nem mais filme, nem mais leitura... Na verdade, parece que um trio elétrico invadiu sua casa.

 Então desisto do descanso, do filme, da leitura e começo a ouvir o que se passa naquela rua de cidade de interior, daquelas onde nas noites as calcadas são ao mesmo tempo praça, parque e sala de encontro.

É um culto de rua. E ao que parece, para aqueles, quanto maior for o raio de alcance sonoro, maior é o poder do Deus. Só que não... Mas o som era de rachar até ovo de pardal, acredite.

Começa a sessão de hinos - horríveis e com as mesmas temáticas: batalhas, provações, vitórias, inimigos do dia-dia, “mar se abrindo”, “martelo subindo”, “sobrenatural de Deus”.

Eu não tenho opções. Ou vou ao culto, ou oro pra que tudo ocorra bem. Acabo ficando com a segunda opção.

A palavra é passada para vários obreiros. Cada um ler um versículo e conta uma vitória. Outro diz um testemunho fantasioso. Outro fala em línguas e outro dá profecias pra todo mundo e ao mesmo tempo pra ninguém.

Finalmente chega a hora da pregação da palavra. O pregador percebe que muita gente da rua está incomodada com aquela reunião estrondosamente insuportável, pios os moradores começaram a entrar em suas casas por terem suas atividades frustradas. Mesmo assim ele solta a voz intrépida e diz: “vocês que estão guardando suas cadeiras e entrando em casa, vocês estão fugindo de Deus; Ele veio aqui pra falar com vocês, mas vocês querem ir para inferno. Pois bem, vocês escolheram o inferno, mas eu vim aqui pra dizer o que ele mandou e não to nem aí se vocês não querem ouvir”. De repente o som é aumentado, parte dos fieis começam a orar em voz mais alta e a falarem em línguas estranhas, e o culto perdura em mais de uma hora.

A essas alturas eu já estava extasiado, perturbado com tantos decibéis nos tímpanos. Esperei o término do culto, fui para a cozinha da casa, liguei no som uma bossa nova bem baixinho pra acalentar a turbulência...um pedaço de queijo, uma taça de vinho e depois fui dormir triste, cansado e decepcionado.




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